sábado, 24 de janeiro de 2009

O email original

Poucos dias antes do carnaval (de 2005), comprei dois potes de vidro de geléia de mocotó Colombo para o Pedro (meu filho). Lavei os dois copos e os coloquei na geladeira. O Pedro comeu o primeiro no próprio dia, normalmente. Dias depois, chegando do carnaval, de madrugada, cansado, ele abriu o segundo pote, mas, por que Deus existe e é bom, não saiu comendo como costumava fazer. Como vocês podem constatar nas fotos a seguir, as tantas baratas que estão no pote fazem parte da própria receita.

Apesar de todos me dizerem para entrar direto contra a Arisco na justiça, eu quis dar um voto de confiança para a empresa e, em documentos protocolados, solicitei duas coisas: 1. a garantia de que a empresa produz seus alimentos dentro de todas as normas de higiene recomendadas; e 2. uma compensação pro Pedro, que quase comeu aquela porcaria (só no final das negociações nós especificamos o que seria essa compensação - um computador e uma impressora).

O Atendimento ao Consumidor me tratou super bem, e duas funcionárias vieram de São Paulo para recolher o produto e mandar examiná-lo. Eu convidei uma amiga para presenciar o encontro e esta amiga viu tudo, viu as baratas na geléia, quero dizer, e as funcionárias... Enfim, elas levaram o pote e solicitaram 20 dias para o exame em laboratório.

Neste ínterim, convidaram a gente para ir à fábrica, em Goiânia. Eu não pude ir, o Pedro foi. Voltou no mesmo dia, chateado. Fizeram ele assinar um documento onde se comprometia a não divulgar nada do que viu na empresa.

"Me convidaram para ir à fábrica onde é produzido o mocotó, que fica em Goiânia. Tinha a espectativa de que fosse uma grande indústria. Na preparação para entrar, coloquei avental, touca, protetor de ouvido e lavei as mãos. Uma vez lá dentro, entretanto, que decepção. A linha de produção do mocotó ocupava uns 40 metros quadrados apenas (sendo que sobrava espaço). As máquinas eram velhas e escurecidas. O ladrilho do chão era de difícil limpeza e, por isso, há muito não era limpo. Alguns ladrilhos soltos, revelando um chão imundo por baixo.

Apesar de nós usarmos proteção para entrar no galpão, ele não era herméticamente isolado: havia uma saída de ar comum. De positivo, o fato de que em nenhuma das etapas ali à vista o produto tomava contato com o ar, e ninguém tocava no produto. O laboratório de exames por amostragem também trabalhava freneticamente, sinal de que os testes eram rotineiros mesmo.

Perguntei como ficavam estocados os insumos. A gerente de controle de pragas me disse que era de difícil acesso e tinha demasiados produtos (e daí?). Em seguida perguntou se eu não estava convencido de que o processo deles era infalível. Eu apontei os defeitos. Não aceitaram meu argumento. Ficaram dizendo onde tinham se formado em química ou engenharia de produção (Campinas e Usp). Eu respondi que não duvidava da qualidade do trabalho deles em geral, mas que tinha ocorrido um erro.

- Pedro, me perguntaram, como é que você sabe que o produto não foi contaminado na cadeia de distribuição?

- Mas só se fosse de sacanagem. Como é que nos caminhões e supermercados iriam abrir a lata, colocar baratas cozidas dentro do mocotó e depois fechar de novo, a vácuo?"

Resumindo, quanto à nossa primeira solicitação, a Arisco concluiu que tudo por lá é uma beleza, que os doidos somos nós... Quanto à segunda solicitação, tudo que a empresa nos daria seria uma outra embalagem de geléia de mocotó como ressarcimento (supomos que SEM BARATAS...).

Portanto, estamos entrando com um processo contra a empresa, denunciando o problema à Vigilância Sanitária de Goiânia e mostrando as fotos e contando a história para vocês.

Por favor repassem este email para as pessoas cuja saúde vocês prezam.

Muito obrigada, um abraço,
Suzana Silva

Uma satisfação

Recentemente, vi que a história das baratas que meu filho encontrou no pote de geléia de mocotó foi postada, inclusive com fotos, em alguns sites, blogs e grupos de discussão. Meu depoimento consta em uma tese de mestrado que trata sobre "marcas que marcam"... E, como sei que até hoje muitas pessoas ainda recebem o email que transcrevi acima, resolvi criar o meu próprio blog a respeito (nada tenho a alterar quanto ao relato do email original).

Participo a todos que ganhei a ação, após alguns anos e recursos da empresa, que enviou o processo inclusive ao Supremo Tribunal Federal.

Meu objetivo não era "ganhar dinheiro", e, sim, fazer com que a Arisco/Unilever se adequasse às normas vigentes para a produção de alimentos. A justiça compreende que isto pode ser feito (também) mediante o pagamento de danos morais, portanto parte dessa "adequação", digamos assim, resultou no dinheiro que me pagou.

Eu entrei na Justiça Especial. Fui assessorada por uma advogada, mas não é preciso haver uma para se entrar com um processo do gênero.

Qualquer pessoa que depare com algo similar pode e deve recorrer à justiça. Dá trabalho? Sim, algum. É preciso descrever os fatos, juntar uma pequena documentação, de preferência fotografar o "problema" e esperar um tempo até que a coisa seja solucionada. Mas vale a pena. O tempo passa - a gente entrando ou não com um processo contra a empresa. Portanto, o meu conselho é que você entre.

E, de preferência, divulgue o caso na Internet.